A INSUSTENTABILIDADE COMO MÉTODO: Mickey 17 e o design sistêmico do poder
O humano como número: quando a vida vira protocolo
No filme "Mickey 17 " não fala de clonagem.
Fala de um Sistema.
A clonagem é apenas a tecnologia,
Uma narrativa que permite revelar algo mais profundo:
a transformação radical do ser humano em recurso operacional.
Os “Descartáveis” não têm nome pleno, têm versões.
Não têm biografia, têm backup de memória.
Não têm morte, têm continuidade funcional.
Isso não é ficção científica distante,
é a extrapolação lógica de um mundo
onde governos e corporações já operam por métricas,
KPIs, big data e estatísticas populacionais.
Mickey não é um indivíduo: é um número iterável,
uma peça substituível de um sistema que não pode parar.
Quando a morte deixa de ser um limite,
a ética também deixa de ser.
Corpo impresso, dor terceirizada
A imagem do “carne impressa com aditivos” , um alimento experimental,
é brutal porque sintetiza a lógica industrial aplicada à carne humana.
Não importa o sofrimento, porque:
a dor é repetível
o corpo é reproduzível
a memória é transferível
o erro é absorvido pelo sistema
ser humano impresso, a cobaia perfeita
Vacinas que alteram o DNA, analgésicos experimentais,
ambientes hostis: tudo se justifica porque o custo humano
é estatisticamente irrelevante.
O descartável existe para absorver risco:
aquilo que o sistema não quer assumir.
o problema não é a tecnologia,
é quem ela protege e quem ela sacrifica.
Colonizar é repetir: só que mais longe
A colonização de Niflheim (ou “Nefilin”,e faz todo sentido)
não representa um novo começo, mas a exportação
do mesmo modelo de poder.
Não se constrói uma nova sociedade.
Constrói-se um assentamento funcional, onde:
hierarquias já vêm prontas
vidas já nascem com valor desigual
alguns existem para viver
outros, para morrer no lugar deles
O planeta é novo, mas o design é antigo.
É o colonialismo de sempre: agora com impressão 3D de corpos.
Quantos de nós sabemos que já estamos dentro?
E aqui vem a grande pergunta,
e que o filme apenas sussurra:
Quantos humanos hoje já são tratados como descartáveis,
sem direito a reset, backup de memória ou nova versão?
A diferença entre nós e Mickey não é estrutural.
É apenas tecnológica.
Hoje, o descarte acontece por:
O filme só remove o verniz moral e mostra o design nu do sistema.
Sam Altman e o investimento embrionário
O investimento de Sam Altman em startups focadas em edição genética embrionária (como a Preventive) revela algo estrutural, não pessoal:
O futuro está sendo pensado como um problema de engenharia.
Eliminar doenças graves é um objetivo ético legítimo.
Mas o design sistêmico nunca para aí.
A pergunta que o filme faz, e que precisamos fazer aqui é:
Quem define o que é “defeito”?
Quem decide o que deve ser eliminado?
Quem se torna o novo “Descartável” genético?
Quando O design sistêmico do poder, abrange a biologia
Quando observamos:
IA acelerando reprogramação celular
edição genética embrionária (CRISPR)
modelos embrionários sintéticos
simulações de implantação uterina
bioimpressão de tecidos e órgãos
não estamos apenas diante de avanços científicos isolados.
Estamos diante de algo maior:
A passagem do design do poder do campo social para o campo biológico.
O sistema não quer mais apenas organizar a vida.
Ele quer otimizá-la na origem.
Mas não define valores.
E aqui entra o vazio perigoso:
a tecnologia avança mais rápido
Mas a reflexão ontológica sobre o que é vida,
o que é humano e onde está o limite, não.
Concluindo
A insustentabilidade não é um acidente tecnológico.
É uma escolha de design sistêmico.
E o reset é o seu mecanismo de sobrevivência.
A IA, a biotecnologia e a engenharia genética podem ser libertadoras,
mas dentro de um design de poder não reformulado, elas apenas tornam
o descarte mais eficiente, mais limpo e menos visível.
Muito Obrigada por ler.
Se te fez refletir, se fez sentido, poderia compartilhar?

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