A MURALHA CLIMÁTICA DE ZOOTOPIA 2: e o Chamado para Reaprender a Pensar
Fomos ao cinema ontem para assistir ao lançamento de Zootopia 2.
E, como sempre acontece quando vemos uma animação com olhos treinados para ler além da superfície, percebemos que o filme fala menos de animais falantes e mais do nosso tempo histórico, da geopolítica, dos poderes invisíveis, das omissões visíveis demais.
Amamos animações porque elas nunca são apenas entretenimento, são reflexos das tensões do nosso tempo, espelhos simbólicos da sociedade que, muitas vezes, falam mais do que os próprios noticiários.
Animes e animações nunca são superficiais, são códigos culturais que dizem o que a realidade muitas vezes não pode dizer.
Vivemos um período em que a profundidade se dissolveu na velocidade.
A TikTokização da sociedade transformou o pensamento crítico em algo quase exótico; tudo precisa caber em segundos, tudo precisa ser fácil de consumir, nada pode exigir reflexão. É assim que a superficialidade se torna norma. Para resgatar a humanidade que estamos perdendo, precisamos reaprender a pensar, não reagir, pensar. Questionar. Sair do enredo pronto.
É exatamente nesse ponto que Zootopia 2 se torna tão desconfortável quanto necessário.
Enquanto investigam sinais da cobra e do diário roubado, Judy Hopps e Nick Wilde cruzam para regiões esquecidas da cidade e tropeçam em algo muito maior do que um simples caso policial. Há um momento crucial em que Judy finalmente entende a dimensão da conspiração, e assustada com o que descobre, ela decide seguir adiante. É quando Nick tenta impedi-la.
Ele olha para ela com um cansaço que não é medo físico, mas social, histórico.
E diz algo como: Não há lugar para heróis aqui.”
Judy retruca: “Se não tivermos coragem para denunciar, quem terá?”
E Nick, com a voz baixa, expõe o cerco: “E se por denunciar, você virar o alvo?”
Esse diálogo é o coração moral do filme, e o nosso também.
A ILUSÃO DA INSIGNIFICÂNCIA É A ILUSÃO DA ELITE SUPERIOR
Esse diálogo ressoa porque toca num ponto profundo: a ilusão da insignificância. A crença de que nada do que fazemos importa.
De que indivíduos não resistem a estruturas tão grandes.
De que o silêncio é prudência, quando, na verdade, é cooperação involuntária.
A ilusão da insignificância é o mecanismo psicológico mais eficiente do poder: não precisa calar ninguém, basta convencer cada um de que sua voz é pequena demais para incomodar.
Mas é justamente o acúmulo das pequenas ações, e também das pequenas corrupções, que molda o destino de sistemas inteiros.
A MURALHA CLIMÁTICA: A CIDADE INTELIGENTE PEVERTIDA
A trama expõe a lógica da nova censura, aquela que não proíbe: monitora. Os sistemas de vigilância, disfarçados de segurança, privacidade e tecnologia “amiga”, não servem para proteger o cidadão, mas para identificar quem ousa pensar fora da norma. O rastreamento por celulares no filme simboliza a era em que quem denuncia vira suspeito, quem revela incoerências vira inimigo, e quem ousa divergência vira ameaça. É a ideia da “cidade inteligente” convertida em gaiola silenciosa, onde tudo é permitido, menos questionar.
E é justamente nesse caminho de investigação que Judy e Nick descobrem a chamada Muralha Climática, uma das metáforas mais potentes do filme. Construída na fundação de Zootopia, ela alterou o ambiente original dos répteis, que já viviam ali, criando um clima artificial que beneficiou uns e apagou outros. A neve constante, produzida por tecnologia, não é um fenômeno natural; é controle ambiental. Uma cidade inteira acreditando que o clima é um presente da natureza, quando, na verdade, é uma ferramenta para manipular riscos, medos e comportamentos.
Afinal, quando o clima pode ser fabricado, o perigo também pode ser fabricado.
Já os répteis, expulsos do lugar que habitavam antes mesmo de a cidade existir, representam o bloco simbólico onde se guarda o que não pode ser revelado: as verdades inconvenientes, os grupos silenciados, as histórias reescritas para manter o mito do progresso.
Que tecnologia pode criar clima, e medo. Que a narrativa verdadeira raramente é a que aparece na tela. E que o ponto fraco de qualquer sistema é o indivíduo que pensa, enquanto o ponto forte é aquele que abdica do pensamento para ser aceito.
Talvez por isso o filme seja tão necessário agora.
Porque, em meio ao ruído, ele nos devolve um chamado: se não tivermos coragem para denunciar, para questionar, para pensar, quem o terá?
PATENTE ROUBADA: PROJETO DE UMA CIDADE SUSTENTÁVEL
No coração oculto de Zootopia 2 existe uma metáfora poderosa, talvez a mais importante de todas, e que passa despercebida quando assistimos ao filme apenas como entretenimento.
A patente roubada da matriarca réptil não é apenas um objeto de trama; é a síntese simbólica de uma verdade que se repete, século após século: as soluções que poderiam libertar a sociedade são sempre as primeiras a serem enterradas.
A história da cidade revela que os répteis estavam ali antes de tudo. Não eram inimigos, nem ameaças; eram os guardiões naturais de um conhecimento ancestral, alinhado à terra, às dinâmicas ecológicas e à harmonia com o ambiente.
A “patente” que lhes foi tomada, uma tecnologia natural, simples e circular, propunha justamente o contrário da cidade que foi construída depois: um modelo libertário, sustentável, descentralizado e baseado na integração com os ciclos naturais.
Era, literalmente, o projeto de uma cidade em que ninguém dominava o clima, porque o clima não era arma.
Ninguém dominava a narrativa, porque não havia narrativa centralizada.
Ninguém dominava a memória, porque a história era contada pelos próprios habitantes, e não reescrita por fundadores ou elites.
Essa cidade, ironicamente, chamava-se Zootopia.
A cidade sustentável original, o sonho dos répteis, foi enterrada sob uma narrativa conveniente: “mudanças climáticas”.
Como se um fenômeno artificial, causado pela manipulação ambiental dos próprios fundadores, pudesse ser atribuído ao acaso natural.
Como se o desastre fosse inevitável, e não projetado.
Como se a exclusão de um povo inteiro pudesse ser justificada por uma catástrofe “natural”, quando, de fato, foi engenharia sociopolítica.
uma tecnologia simples demais para ser lucrativa,
poderosa demais para ser controlada,
eficiente demais para caber nos interesses das elites.
Ela é a personificação das soluções baseadas na natureza.
Aquelas que funcionam de verdade, mas que não geram dependência.
Aquelas que regeneram, mas não permitem monopólio.
Aquelas que libertam, mas não enriquecem quem está no topo.
Por isso precisam ser apagadas como foram no filme.
A Zootopia original seria uma cidade em que clima, energia,
reciclagem, belezas naturais e convivência fluíriam de forma orgânica.
Uma cidade que não precisaria manipular a neve para mostrar “eficiência”.
Uma cidade que não usaria tecnologia para vigiar, mas apenas para viver melhor.
Uma cidade sem greenwashing, o que, para o poder estabelecido, é uma ameaça real.
CONCLUSÃO: POR QUE A SUSTENTABILIDADE VERDADEIRA É TRATADA COMO UTOPIA?
A cidade do filme, não ironicamente, chamou-se Zootopia.
A ironia é grande porque evoca uma utopia, e no filme, tornou-se o oposto disso: um espaço de vigilância, controle e apagamento histórico.
A cidade sustentável original, o projeto da patente roubada, o sonho dos répteis,
foi enterrada sob uma narrativa conveniente: “mudanças climáticas”
É desconfortável admitir, mas o filme nos coloca diante de uma pergunta profunda:
por que a sustentabilidade verdadeira é tratada como utopia?
Por que aquilo que é simples, natural e equilibrado é visto como inviável?
Por que Soluções Baseadas na Natureza, que existem desde muito antes da humanidade atual, são ignoradas em favor de modelos centralizados, caros, artificiais e, muitas vezes, destrutivos?
E, talvez mais importante: não é controlável.
Angela Camolese
Designer Regenerativa: Soluções Circulares com Consciência
Consultora em Economia Circular e Design regenerativo


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